Por Ingridh Farina da Silva, Fisioterapeuta, Mestre em Saúde Coletiva e Presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de MT – Crefito9
No Dia Internacional do Trabalho do ano de 2020 nada mais pertinente do que dialogar sobre a Segurança e a Saúde no Trabalho em tempos de pandemia, em especial para um grupo específico de trabalhadores: os que estão na frente de batalha no enfrentamento à Covid-19.
No dia 28 de abril, dia da Conscientização Mundial sobre Segurança e Saúde no Trabalho, o foco para a Organização Internacional do Trabalho OIT foi a resposta a surtos de doenças infecciosas no local de trabalho tendo como base a covid-19, sobretudo a conscientização sobre adoção de práticas seguras nos locais de trabalho e o papel de serviços de saúde e segurança nas empresas.
Mas o que observamos é que mesmo para os profissionais de saúde que estão diretamente envolvidos no cuidado dos pacientes, pouco se discute sobre as condições, segurança e a organização do trabalho. Dá-se muita ênfase nos protocolos de biossegurança com recomendação de medidas individuais como por exemplo, os fisioterapeutas e outros profissionais da saúde responsáveis pelo atendimento do paciente com covid-19 devem estar devidamente paramentados e com equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados, o que é fundamental. Porém, pouco se fala sobre combate ou controle da exposição ao vírus e de como o trabalho pode ser vetorial. A situação de trabalho é território de disseminação de doença seja física ou mental. Mas não é só o biológico que conta, a responsabilidade não pode ser apenas do profissional do indivíduo.
Que dizer sobre as condições de trabalho precarizadas, a remuneração indigna, a sobrecarga na jornada de trabalho, plantões extenuantes, falta de treinamento, além da indisponibilidade de equipamentos de proteção individual ou de EPIs de qualidade que ofereçam segurança de verdade. As práticas do cuidado no dia a dia do trabalhador da saúde podem ser muito diferentes das recomendações.
E quem olha para este trabalhador? Quem cuida do cuidador? Da sua saúde mental, do seu psicológico, do se sentir pressionado a não errar? Da escolha muitas vezes em quem deve ou não ter prioridade no atendimento? Quem vai para o ventilador? Quem fica? E as relações familiares, pessoais? Onde está a pessoa por traz da máscara? Onde ela ficou em tudo isso? Como proteger a família de si mesmo? Sem calar da contaminação que pode estar levando para casa todos os dias. Há também os que já estavam adoecidos com comorbidades e fazendo parte do grupo de risco, as trabalhadoras gestantes, e mesmo assim ainda se dispondo ao trabalho.
Em tempo de covid-19, hotéis e locais adequados para que profissionais em quarentena e contaminados possam ser cuidados sem oferecer risco as suas famílias nunca fez tanto sentido.
O que vamos apreender com tudo isso depois dessa pandemia? Que processos de trabalho deverão ser revistos? Repensados? Como proteger nossos profissionais dos riscos ocupacionais? Como garantir condições saudáveis para o trabalho? Esse tão importante papel da segurança e saúde no trabalho que a muito negligenciamos fica evidente agora com os riscos ocupacionais que estamos expostos estando na linha de frente do combate ao novo coronavírus.



