30 de julho de 2026 - 05:05

Tese defendida na UFMT recebe reconhecimento internacional póstumo

Foto: Reprodução

A pesquisa sobre “O Bem-Amado”, de Iza Godoi Sepúlveda, recebeu o prêmio de melhor tese em língua portuguesa da conferência de 2026 da International Society for Humor Studies

Uma tese desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) recebeu o prêmio de melhor tese em língua portuguesa da conferência de 2026 da International Society for Humor Studies. A pesquisa, intitulada “O país do absurdo: a teledramaturgia de Dias Gomes como forma de ler o Brasil em O Bem-Amado (1973)”, foi realizada por Iza Godoi Sepúlveda, que faleceu no final de junho.

De acordo com a orientadora do trabalho, professora Thaís Leão Vieira, uma das principais contribuições da tese é a formulação da noção de “ação nas brechas”. O conceito descreve como artistas e intelectuais encontravam, em meio à censura e às pressões da indústria cultural, espaços para a expressão política, com destaque para o papel desempenhado pelo humor.

A pesquisa também evita uma interpretação simplista dos censores da ditadura como despreparados ou incapazes, que, por isso, deixavam as críticas sociais presentes em obras como O Bem-Amado “escaparem”.

De acordo com a autora, “não se trata de falta de expertise dos censores, mas, especificamente, da maneira como eles pensavam a recepção da obra. O riso, o escárnio e o deboche, como formas menos sérias para eles, levariam os espectadores a compreender a pouca seriedade do que seria exibido”.

A tese demonstra, portanto, que os censores permitiam a veiculação de determinadas críticas não porque deixassem de percebê-las, mas porque consideravam que o uso do humor reduziria a seriedade dos argumentos. Essa compreensão estava relacionada à visão da comédia como uma forma artística inferior ao drama, criando uma possibilidade de “ação nas brechas”.

“Essa é uma das formulações mais originais do trabalho: ela mostra que aquilo que a censura tentava rebaixar como ‘comédia’ podia, justamente por sua ambivalência, abrir brechas para a crítica. O cômico aparece, portanto, em dupla condição: de um lado, como registro que a censura buscava domesticar; de outro, como linguagem capaz de produzir deslocamento, estranhamento, paródia e leitura crítica do Brasil”, explica Thais.

Assim, a autora mostra que, ao intervirem sobre O Bem-Amado, os censores não se limitavam a proibir conteúdos. Eles também procuravam orientar os modos de leitura, controlar os efeitos de sentido, regular a circulação da narrativa e enquadrar a obra em determinados registros estéticos e morais.

A tese também se destaca pela atenção dedicada à construção das personagens. Odorico Paraguaçu, por exemplo, é definido pela contradição entre o que diz e o que faz. Ele não possui compromisso com valores que ultrapassem a manutenção do poder. Sua linguagem excessiva, os duplos sentidos e a relação estabelecida com a câmera permitem ao espectador reconhecer seu disfarce e participar da exposição de seu cinismo.

Já Zeca Diabo é anunciado como uma ameaça, mas surge marcado por contradições que despertam a simpatia do público. O desespero dos moradores de Sucupira diante de sua chegada convive com situações que provocam o riso. O absurdo, portanto, não interrompe o drama: é uma das formas pelas quais o drama brasileiro pode ser narrado.

Reconhecimento

De acordo com a orientadora, ao reunir documentos da censura, cenas da novela, entrevistas, revistas especializadas e debates sobre sua recepção, Iza construiu uma análise que articula forma estética e experiência histórica.

“Seu trabalho demonstra que a televisão não apenas representou conflitos existentes na sociedade, mas também participou da produção de sentidos sobre a política, a moralidade e o próprio Brasil. Sua leitura de O Bem-Amado amplia as possibilidades de investigação da teledramaturgia e reafirma o audiovisual como fonte e objeto relevante para a historiografia”.

A importância dessa contribuição foi reconhecida em 2026, durante o congresso da ISHS, realizado em Niterói, quando a tese de Iza recebeu o prêmio de melhor tese de 2025. Para o Programa de Pós-Graduação em História, esse reconhecimento é motivo de orgulho e reafirma a relevância da contribuição intelectual deixada por Iza.

Do ponto de vista científico, social e cultural, a pesquisa contribui para a valorização da telenovela como objeto da investigação histórica. Ao analisar O Bem-Amado, primeira telenovela em cores exibida pela Rede Globo e uma das obras centrais da teledramaturgia brasileira, a tese aborda questões mais amplas relacionadas à cultura política, ao autoritarismo, à moralidade, ao consumo cultural, à formação de públicos e à construção da identidade nacional.

Fonte: UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso

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