{"id":14876,"date":"2026-10-02T05:00:55","date_gmt":"2026-10-02T09:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdacondessa.com.br\/blog\/?p=14876"},"modified":"2026-10-01T21:38:11","modified_gmt":"2026-10-02T01:38:11","slug":"as-construcoes-monumentais-escondidas-na-amazonia-descobertas-por-cientistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdacondessa.com.br\/blog\/meio-ambiente\/as-construcoes-monumentais-escondidas-na-amazonia-descobertas-por-cientistas\/","title":{"rendered":"As constru\u00e7\u00f5es monumentais &#8216;escondidas&#8217; na Amaz\u00f4nia descobertas por cientistas"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores encontraram centenas de constru\u00e7\u00f5es monumentais, que podem ser vistas do alto, de <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cdr56r251gnt\">avi\u00f5es<\/a>, numa regi\u00e3o que compreende o sul do Estado do Amazonas e por\u00e7\u00f5es do Acre, na <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c2dwqd8g290t\">Amaz\u00f4nia<\/a>.<\/p>\n<p>As estruturas foram constru\u00eddas h\u00e1 milhares de anos, numa regi\u00e3o que fica longe de grandes rios e, segundo os <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cr50y580rjxt\">cientistas<\/a>, pode ter abrigado milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;Esse povo fazia geometria monumental na Amaz\u00f4nia ao mesmo tempo que <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cle6w9e64n5o\">Pit\u00e1goras<\/a> desenvolvia seu teorema na <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cjgn7g89w3yt\">Gr\u00e9cia<\/a>&#8220;, compara o paleont\u00f3logo Alceu Ranzi, presidente do Instituto Geoglifos da Amaz\u00f4nia e um dos autores de um estudo recente sobre o tema.<\/p>\n<p>Entenda a seguir o que os novos achados revelam sobre o passado da <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c2dwqd8g290t\">maior floresta tropical do mundo<\/a> \u2014 e os detalhes sobre a chamada civiliza\u00e7\u00e3o Aquiry, respons\u00e1vel por criar os geoglifos, o nome dado a essas enormes estruturas escavadas na terra.<\/p>\n<p><strong>Uma tecnologia que permite desvendar o passado<\/strong><\/p>\n<p>As revela\u00e7\u00f5es mais recentes sobre os geoglifos e a civiliza\u00e7\u00e3o Aquiry foram tema de <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-026-10835-7\">um artigo cient\u00edfico publicado em julho no famoso peri\u00f3dico acad\u00eamico Nature<\/a>.<\/p>\n<p>O trabalho foi realizado por cientistas do Instituto Iberoamericano da Finl\u00e2ndia, na Espanha, da Universidade de Helsinki, na Finl\u00e2ndia, da Universidade de Turku (tamb\u00e9m na Finl\u00e2ndia), da Universidade Federal do Acre, da Universidade Federal do Par\u00e1, entre outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os pesquisadores usaram uma tecnologia chamada LiDAR \u2014 sigla em ingl\u00eas para detec\u00e7\u00e3o e medi\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia por luz.<\/p>\n<p>Basicamente, esse equipamento usa um laser para medir dist\u00e2ncias e construir mapas complexos em tr\u00eas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Em regi\u00f5es como a Amaz\u00f4nia, o LiDAR consegue &#8220;ver&#8221; o que est\u00e1 embaixo das \u00e1rvores \u2014 e analisar grandes \u00e1reas sem a necessidade de desmatar ou visitar todos esses lugares, um a um.<\/p>\n<p>&#8220;Essa foi a primeira avalia\u00e7\u00e3o com LiDAR ambiciosa na Amaz\u00f4nia&#8221;, defende o arque\u00f3logo e antrop\u00f3logo Martti P\u00e4rssinen, da Universidade de Helsinki, na Finl\u00e2ndia, e outro autor do artigo.<\/p>\n<p><strong>Centenas de constru\u00e7\u00f5es monumentais<\/strong><\/p>\n<p>Com ajuda desse equipamento, os cientistas rastrearam uma \u00e1rea de 4,4 mil km\u00b2 entre os Estados do Amazonas e do Acre.<\/p>\n<p>E, nesse trecho, foram identificadas 432 estruturas de terra \u2014 396 delas nunca antes registradas.<\/p>\n<p>Os geoglifos associados \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o Aquiry foram constru\u00eddos entre os anos 600 a.C. e 850 d.C.<\/p>\n<p>A partir desses dados e de imagens de sat\u00e9lite, eles estimam que a \u00e1rea ocupada pela civiliza\u00e7\u00e3o chegava a cerca de 183 mil km\u00b2 \u2014 menos de 3% da Grande Amaz\u00f4nia, uma \u00e1rea pouco maior do que o territ\u00f3rio do Uruguai.<\/p>\n<p>Os autores tamb\u00e9m calculam que, por volta dos anos 100 e 300 d.C., essa regi\u00e3o abrigava at\u00e9 3 milh\u00f5es de pessoas \u2014 n\u00fameros que, segundo os cientistas, est\u00e3o relacionados \u00e0 monumentalidade dos geoglifos.<\/p>\n<p>&#8220;A maioria [dos geoglifos] s\u00e3o valas, e elas variam de tamanho&#8221;, detalha Ranzi.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 valas de at\u00e9 15 metros de largura e cinco metros de profundidade&#8221;, complementa ele.<\/p>\n<p>Os autores da pesquisa sugerem que a constru\u00e7\u00e3o de estruturas gigantescas como essas exigiam uma grande comunidade de pessoas trabalhando juntas.<\/p>\n<p><strong>Como os geoglifos foram constru\u00eddos?<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Nessa regi\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 pedra. Possivelmente, se utilizava material de madeira, e cestos para carregar [a terra]&#8221;, responde Ranzi.<\/p>\n<p>&#8220;Era muita m\u00e3o de obra, mas n\u00e3o temos certeza, porque tudo na Amaz\u00f4nia \u00e9 org\u00e2nico, desaparece&#8221;, detalha o pesquisador.<\/p>\n<p>Isso significa que \u00e9 imposs\u00edvel encontrar nessa regi\u00e3o sinais antigos &#8220;cl\u00e1ssicos&#8221; de uma ocupa\u00e7\u00e3o humana, como corpos enterrados, restos de comidas ou ind\u00edcios de acampamentos e habita\u00e7\u00f5es. Por conta da umidade, todo esse material se decomp\u00f5e com o passar do tempo, ao contr\u00e1rio do que acontece nas regi\u00f5es mais secas do planeta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do grande n\u00famero de m\u00e3o-de-obra e da necessidade de divis\u00e3o de tarefas, os especialistas avaliam que essas constru\u00e7\u00f5es exigiram conhecimentos de matem\u00e1tica e geometria.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 tivemos na Amaz\u00f4nia condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas suficientes para uma civiliza\u00e7\u00e3o gigantesca como a Aquiry construir geoglifos na floresta&#8221;, raciocina o arque\u00f3logo e antrop\u00f3logo Rhuan Carlos Lopes, da Universidade Federal do Par\u00e1, que tamb\u00e9m assina o artigo.<\/p>\n<p><strong>Para que serviram os geoglifos?<\/strong><\/p>\n<p>Uma das primeiras hip\u00f3teses dos pesquisadores era a de que os geoglifos seriam fortes, ou constru\u00e7\u00f5es de defesa, para que a popula\u00e7\u00e3o se protegesse contra invas\u00f5es e ataques.<\/p>\n<p>Mas, hoje, os especialistas consideram mais prov\u00e1vel que elas tivessem fun\u00e7\u00f5es cerimoniais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>&#8220;Se realmente se confirmar que elas s\u00e3o estruturas cerimoniais, esse povo vivia em paz porque, para dedicar tanto esfor\u00e7o, tanto trabalho, isso significa que n\u00e3o havia inimigos com os quais se preocupar&#8221;, especula Ranzi.<\/p>\n<p>P\u00e4rssinen levanta outro aspecto que as pesquisas na regi\u00e3o indicam: um respeito absoluto pela natureza.<\/p>\n<p>&#8220;Eles nunca transformaram a floresta tropical numa savana&#8221;, pontua ele.<\/p>\n<p>&#8220;O que significa que as clareiras e a derrubada de \u00e1rvores era grande o suficiente para a subsist\u00eancia, para cultivar milho, ab\u00f3bora, mandioca, nada mais&#8221;, complementa o cientista.<\/p>\n<p>No artigo, os pesquisadores defendem que n\u00e3o havia uma ocupa\u00e7\u00e3o permanente dessas estruturas: elas eram usadas pra receber convidados e fazer cerim\u00f4nias de cunho pol\u00edtico, cultural, esportivo ou religioso.<\/p>\n<p>&#8220;Os geoglifos eram usados para encontros, para tomar decis\u00f5es pol\u00edticas e para organizar cerim\u00f4nias religiosas, e tamb\u00e9m para festas, dan\u00e7a e m\u00fasica&#8221;, refor\u00e7a P\u00e4rssinen.<\/p>\n<p>O trabalho em campo, por meio de escava\u00e7\u00f5es, indica que essas estruturas eram muito bem cuidadas.<\/p>\n<p>&#8220;Havia uma manuten\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os. N\u00e3o era s\u00f3 constru\u00ed-los, mas mant\u00ea-los ao longo dos s\u00e9culos, e isso, obviamente, implica tamb\u00e9m a exist\u00eancia de um conjunto de saberes&#8221;, conta Lopes.<\/p>\n<p>Outro ponto importante: os estudos mostram que as constru\u00e7\u00f5es eram ligadas por estradas.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s mapeamos 350 km de estradas que conectam os geoglifos&#8221;, diz Ranzi.<\/p>\n<p>Segundo ele, os geoglifos n\u00e3o eram estruturas isoladas, no meio da floresta ou da paisagem.<\/p>\n<p>&#8220;Esses caminhos conduziam para esses locais, e essas vias, quando se aproximavam das estruturas, aumentavam de tamanho.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 como se fosse sair do interior para uma pequena rua, que se transforma numa estrada e depois vira uma rodovia de duas vias, tr\u00eas ou quatro faixas&#8221;, compara o cientista.<\/p>\n<p><strong>O fim da civiliza\u00e7\u00e3o Aquiry<\/strong><\/p>\n<p>Durante as investiga\u00e7\u00f5es, os pesquisadores notaram algo curioso: os geoglifos deixaram de ser constru\u00eddos por volta do ano 850 d.C.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe muito bem o motivo disso.<\/p>\n<p>Ranzi faz um paralelo com o que aconteceu nesse mesmo per\u00edodo com os maias, que habitavam partes do M\u00e9xico e da Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>&#8220;Nesse mesmo tempo, os maias deixaram de construir e de utilizar aqueles pal\u00e1cios. As pir\u00e2mides do Yucat\u00e1n voltaram a ser ocupadas pela floresta&#8221;, observa ele.<\/p>\n<p>&#8220;E algo parecido aconteceu na Amaz\u00f4nia. Os anos 800 foram talvez um per\u00edodo de alguma crise ambiental global&#8221;, sugere ele.<\/p>\n<p>Ranzi pesquisa os geoglifos do Acre h\u00e1 mais de 40 anos \u2014 ele viu as primeiras estruturas do tipo durante um voo, quando voltava a Rio Branco depois de uma viagem.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a maioria dessas constru\u00e7\u00f5es s\u00f3 podia ser identificada em \u00e1reas que tinham sido desmatadas e transformadas em planta\u00e7\u00f5es ou pasto.<\/p>\n<p>&#8220;Para mim, o que chamou a aten\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o foi a monumentalidade dessas estruturas. S\u00e3o desenhos de 400, 500 metros de di\u00e2metro&#8221;, lembra ele.<\/p>\n<p>Agora, com ajuda de novas tecnologias como o LiDAR, o trabalho dos arque\u00f3logos segue em frente \u2014 com a vantagem de saber melhor onde fazer escava\u00e7\u00f5es em busca de mais vest\u00edgios sobre a civiliza\u00e7\u00e3o Aquiry.<\/p>\n<p><strong>Um novo passado para a Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>As pesquisas sobre os geoglifos est\u00e3o conectadas a um movimento maior, que vem desvendando aos poucos o passado da Amaz\u00f4nia \u2014 e desfazendo muito mitos sobre esse lugar.<\/p>\n<p>O primeiro deles era o de que essa era uma mata intocada, sem sinais de ocupa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, pesquisas em diferentes campos do conhecimento t\u00eam demonstrado que essa regi\u00e3o era habitada por milh\u00f5es de pessoas muito antes da chegada dos europeus \u2014 e eles deixaram marcas profundas na composi\u00e7\u00e3o e na estrutura da maior floresta tropical do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;O que a gente v\u00ea na Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 uma grande floresta natural, mas, sim, um grande jardim constru\u00eddo historicamente&#8221;, defende Lopes.<\/p>\n<p>&#8220;E isso, do meu ponto de vista, \u00e9 muito fascinante&#8221;, complementa o pesquisador.<\/p>\n<p>As estimativas sobre a ocupa\u00e7\u00e3o ancestral desse territ\u00f3rio ainda est\u00e3o em crescimento: antes, estudos calculavam que toda a Amaz\u00f4nia pr\u00e9-colonial poderia suportar entre 1 milh\u00e3o e 2,5 milh\u00f5es de pessoas, no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Depois, essa conta subiu para entre 5 e 10 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Agora, com a sugest\u00e3o de que apenas uma \u00e1rea relativamente pequena dessa floresta abrigaria at\u00e9 3 milh\u00f5es de indiv\u00edduos, \u00e9 poss\u00edvel que esse n\u00famero aumente novamente.<\/p>\n<p>Outra contribui\u00e7\u00e3o do estudo dos geoglifos \u00e9 entender como se deu a ocupa\u00e7\u00e3o da chamada &#8220;terra firme&#8221;.<\/p>\n<p>Antes, acreditava-se que a ocupa\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica se deu principalmente \u00e0s margens dos grandes rios, onde supostamente haveria mais condi\u00e7\u00f5es para se obter alimentos.<\/p>\n<p>Mas os geoglifos se localizam justamente na regi\u00e3o entre rios, que \u00e9 conhecida como terra firme: pesquisas recentes revelaram que esses lugares tamb\u00e9m reuniam grandes popula\u00e7\u00f5es, com capacidade de intervir na floresta e cultivar mandioca, feij\u00f5es, ab\u00f3bora, milho\u2026<\/p>\n<p>&#8220;Essas pessoas ocuparam n\u00e3o s\u00f3 os grandes rios, ali nas praias, com abund\u00e2ncia de peixe, facilidade de andar de canoas, de se deslocar. Elas tamb\u00e9m ocuparam todo o interior, pelo menos no sul do Amazonas e no Acre&#8221;, refor\u00e7a Ranzi.<\/p>\n<p>&#8220;Elas conheciam a topografia, ocupavam lugares longe dos rios e se deslocavam a p\u00e9 por esses caminhos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E isso altera completamente a vis\u00e3o de como aconteceu a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia&#8221;, conclui ele. (BBC News)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores encontraram centenas de constru\u00e7\u00f5es monumentais, que podem ser vistas do alto, de avi\u00f5es, numa regi\u00e3o que compreende o sul do Estado do Amazonas e por\u00e7\u00f5es do Acre, na Amaz\u00f4nia. 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