{"id":14196,"date":"2026-05-27T12:11:06","date_gmt":"2026-05-27T16:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdacondessa.com.br\/blog\/?p=14196"},"modified":"2026-05-27T12:11:06","modified_gmt":"2026-05-27T16:11:06","slug":"pesquisa-identifica-3-tipos-cerebrais-diferentes-de-tdah-como-isso-pode-mudar-tratamento-para-o-transtorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdacondessa.com.br\/blog\/saude\/pesquisa-identifica-3-tipos-cerebrais-diferentes-de-tdah-como-isso-pode-mudar-tratamento-para-o-transtorno\/","title":{"rendered":"Pesquisa identifica 3 tipos cerebrais diferentes de TDAH: como isso pode mudar tratamento para o transtorno"},"content":{"rendered":"<p>Por d\u00e9cadas, m\u00e9dicos e pesquisadores trataram o Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade \u2014 o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cwyl6gzrn06o\">TDAH<\/a>\u00a0\u2014 como se fosse uma condi\u00e7\u00e3o relativamente \u00fanica, variando apenas no quanto cada pessoa era desatenta,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/ciencia\/2010\/10\/100930_hiperatividade_genes_mv\">hiperativa<\/a>\u00a0ou impulsiva.<\/p>\n<p>Agora, um\u00a0<a href=\"https:\/\/jamanetwork.com\/journals\/jamapsychiatry\/fullarticle\/2845158\">estudo<\/a>\u00a0publicado em fevereiro de 2026 na revista cient\u00edfica JAMA Psychiatry, uma das publica\u00e7\u00f5es de psiquiatria mais respeitadas do mundo, vem colocar em xeque essa vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Usando imagens de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica do c\u00e9rebro de mais de mil crian\u00e7as, pesquisadores de universidades na China, nos Estados Unidos e na Austr\u00e1lia conseguiram identificar tr\u00eas perfis cerebrais distintos dentro do TDAH \u2014 o que a pesquisa chama de &#8220;biotipos&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, cada um dos perfis tem suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas no c\u00e9rebro, com diferentes sintomas predominantes e implica\u00e7\u00f5es para quais tratamentos funcionam melhor para cada perfil.<\/p>\n<p><strong>O problema com o diagn\u00f3stico atual<\/strong><\/p>\n<p>O manual que orienta os diagn\u00f3sticos psiqui\u00e1tricos em boa parte do mundo, o DSM, classifica o TDAH com base em comportamentos observ\u00e1veis \u2014 dificuldade de aten\u00e7\u00e3o, impulsividade, agita\u00e7\u00e3o \u2014 e a partir da\u00ed define se o quadro \u00e9 predominantemente desatento, hiperativo ou combinado.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esse sistema foi constru\u00eddo com base em consenso cl\u00ednico \u2014 grupos de especialistas deliberando sobre quais comportamentos s\u00e3o clinicamente relevantes \u2014 e n\u00e3o necessariamente no que ocorre no funcionamento do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Mas o novo estudo demonstra que o que ocorre no c\u00e9rebro \u00e9 muito mais variado do que as categorias do DSM conseguem descrever.<\/p>\n<p>&#8220;O TDAH \u00e9 caracterizado por uma consider\u00e1vel heterogeneidade cl\u00ednica, e os sistemas de classifica\u00e7\u00e3o existentes limitam o desenvolvimento de abordagens baseadas em neurobiologia&#8221;, escrevem os pesquisadores logo na abertura do artigo.<\/p>\n<p>Para Guilherme Polanczyk, coordenador do N\u00facleo de Pesquisa em Neurodesenvolvimento e Sa\u00fade Mental da USP e do Programa de Diagn\u00f3stico e Interven\u00e7\u00f5es Precoces do IPq (Instituto de Psiquiatria), o DSM continua sendo um instrumento v\u00e1lido \u2014 mas insuficiente para dar conta da diversidade real dos pacientes.<\/p>\n<p>&#8220;Existe um grupo muito heterog\u00eaneo de pessoas com TDAH, assim como ocorre em outros diagn\u00f3sticos&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;As t\u00e9cnicas de neuroci\u00eancia, sem d\u00favida, t\u00eam potencial para identificar esses subgrupos, e entendemos que, eventualmente, isso poderia levar a tratamentos mais direcionados e espec\u00edficos.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Como o estudo foi feito<\/strong><\/p>\n<p>A equipe, liderada pelo m\u00e9dico e pesquisador Qiyong Gong, da Universidade de Sichuan, na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cdr56r2v966t\">China<\/a>, coletou imagens de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica estrutural \u2014 um exame que mostra a anatomia do c\u00e9rebro em detalhes \u2014 de crian\u00e7as com e sem TDAH em seis centros de pesquisa diferentes, espalhados por China e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cdr56r2r88wt\">Estados Unidos<\/a>.<\/p>\n<p>No total, participaram 446 crian\u00e7as com diagn\u00f3stico de TDAH e 708 sem o transtorno no grupo principal do estudo. Os resultados foram depois verificados em um segundo grupo independente, com mais 554 crian\u00e7as com TDAH. A m\u00e9dia de idade era de cerca de 11 anos.<\/p>\n<p>A partir das imagens, os pesquisadores constru\u00edram o que chamam de &#8220;redes de similaridade morfom\u00e9trica&#8221; \u2014 uma forma de mapear como diferentes regi\u00f5es do c\u00e9rebro se assemelham entre si em estrutura e volume.<\/p>\n<p>Regi\u00f5es que crescem e se desenvolvem de forma parecida tendem a trabalhar juntas, e altera\u00e7\u00f5es nessa rede podem revelar como o c\u00e9rebro de uma crian\u00e7a difere do padr\u00e3o esperado.<\/p>\n<p>Para estabelecer esse padr\u00e3o de refer\u00eancia, os pesquisadores utilizaram uma t\u00e9cnica chamada modelagem normativa. Com ela, \u00e9 montada uma esp\u00e9cie de curva de crescimento aplicada ao c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Assim como um pediatra usa uma curva de peso para avaliar se uma crian\u00e7a est\u00e1 dentro do esperado para sua idade, essa abordagem quantifica o quanto o c\u00e9rebro de cada crian\u00e7a se afasta da norma em determinadas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Com esses desvios mapeados individualmente, os pesquisadores aplicaram algoritmos para agrupar as crian\u00e7as de acordo com os padr\u00f5es encontrados \u2014 sem usar nenhuma informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, apenas os dados cerebrais.<\/p>\n<p>O que emergiu foram tr\u00eas grupos distintos.<\/p>\n<p><strong>Os tr\u00eas biotipos<\/strong><\/p>\n<p><strong>Biotipo 1 \u2014 O mais grave: combinado com desregula\u00e7\u00e3o emocional<\/strong><\/p>\n<p>Este grupo reuniu 142 crian\u00e7as e foi o que apresentou os quadros mais intensos. As altera\u00e7\u00f5es cerebrais estavam concentradas no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal medial e numa estrutura chamada p\u00e1lido \u2014 regi\u00f5es ligadas ao controle emocional, \u00e0 tomada de decis\u00e3o e \u00e0 regula\u00e7\u00e3o do comportamento.<\/p>\n<p>Clinicamente, essas crian\u00e7as tinham os maiores n\u00edveis tanto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c74rlpw24ljo\">desaten\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0quanto de hiperatividade\/impulsividade. Mas o que mais se destacou foi a dificuldade de controlar as emo\u00e7\u00f5es: elas tinham mais problemas para lidar com frustra\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c3ev9049q90o\">raiva<\/a>\u00a0e ang\u00fastia do que os outros grupos.<\/p>\n<p>Ao longo do tempo, enquanto os outros biotipos mostraram melhora nessa \u00e1rea, o biotipo 1 permaneceu mais est\u00e1vel \u2014 ou seja, os sintomas emocionais persistiam.<\/p>\n<p>Esse grupo tamb\u00e9m apresentou maior taxa de transtornos de humor associados, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-59757461\">ansiedade e depress\u00e3o<\/a>, embora o n\u00famero de casos n\u00e3o fosse grande o suficiente para ser conclusivo estatisticamente.<\/p>\n<p>O destaque dado \u00e0 desregula\u00e7\u00e3o emocional \u00e9 um dos pontos que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o de especialistas. Para Polanczyk, esse achado dialoga diretamente com uma linha de pesquisa em crescimento.<\/p>\n<p>&#8220;A irritabilidade vem sendo bastante estudada e reconhecida como um fator associado a maior gravidade e a maior dificuldade de resposta aos tratamentos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio grupo do pesquisador tem um estudo em fase de publica\u00e7\u00e3o que, usando o temperamento como crit\u00e9rio de agrupamento em crian\u00e7as pequenas com TDAH, chegou a conclus\u00e3o semelhante: a irritabilidade distingue um subgrupo espec\u00edfico de pacientes.<\/p>\n<p>Para Danielle Admoni, psiquiatra especializada em inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia pela Unifesp, o estudo confirma algo que a pr\u00e1tica cl\u00ednica j\u00e1 sinalizava: a dificuldade de controlar emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 apenas um efeito colateral do TDAH \u2014 em certos perfis, ela pode ser t\u00e3o definidora do quadro quanto a desaten\u00e7\u00e3o ou a hiperatividade.<\/p>\n<p>Ela aponta implica\u00e7\u00f5es diretas para o tratamento: &#8220;A gente tem casos de TDAH que melhoram muito pouco com a medica\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que nesses casos a gente n\u00e3o precisa associar alguma coisa pensando nessa desregula\u00e7\u00e3o emocional \u2014 de repente um estabilizador de humor, alguma outra medica\u00e7\u00e3o \u2014 entendendo que isso pode ser algo mais central do que se pensava at\u00e9 ent\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p><strong>Biotipo 2 \u2014 Predominantemente hiperativo\/impulsivo<\/strong><\/p>\n<p>Com 177 crian\u00e7as, este foi o maior dos tr\u00eas grupos.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es cerebrais estavam concentradas no c\u00f3rtex cingulado anterior e, novamente, no p\u00e1lido \u2014 um circuito ligado ao controle de impulsos e \u00e0 capacidade de inibir comportamentos.<\/p>\n<p>O perfil cl\u00ednico bateu bem com a neurobiologia: hiperatividade e impulsividade eram os sintomas dominantes, com a desaten\u00e7\u00e3o aparecendo em menor grau.<\/p>\n<p>Ao longo do acompanhamento, esse grupo mostrou melhora na regula\u00e7\u00e3o emocional \u2014 ao contr\u00e1rio do biotipo 1.<\/p>\n<p><strong>Biotipo 3 \u2014 Predominantemente desatento<\/strong><\/p>\n<p>Este grupo reuniu 127 crian\u00e7as. As altera\u00e7\u00f5es cerebrais eram mais localizadas, concentradas principalmente no giro frontal superior, uma regi\u00e3o associada \u00e0 aten\u00e7\u00e3o sustentada e \u00e0 mem\u00f3ria de trabalho \u2014 aquela capacidade de manter informa\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a enquanto se realiza uma tarefa.<\/p>\n<p>Clinicamente, a desaten\u00e7\u00e3o era o sintoma dominante, com hiperatividade e impulsividade em segundo plano.<\/p>\n<p>Das tr\u00eas, foi a configura\u00e7\u00e3o que apresentou os desvios cerebrais menos extensos, sugerindo um quadro mais focal e, possivelmente, mais espec\u00edfico de responder a certas interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por que as descobertas importam<\/strong><\/p>\n<p>A descoberta mais relevante do estudo n\u00e3o \u00e9 simplesmente o n\u00famero de biotipos \u2014 mas sim o fato de que esses grupos foram identificados sem que os pesquisadores usassem qualquer informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>O algoritmo olhou apenas para o c\u00e9rebro e chegou a agrupamentos que, depois, se mostraram coerentes com o comportamento das crian\u00e7as. Isso \u00e9 o que os cientistas chamam de valida\u00e7\u00e3o convergente: duas formas diferentes de olhar para o mesmo problema chegam \u00e0 mesma conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 relevante porque sugere que esses biotipos n\u00e3o s\u00e3o apenas uma constru\u00e7\u00e3o estat\u00edstica conveniente \u2014 eles podem refletir diferen\u00e7as biol\u00f3gicas reais. E se as diferen\u00e7as s\u00e3o biol\u00f3gicas, elas potencialmente respondem de formas diferentes a tratamentos.<\/p>\n<p>O estudo foi al\u00e9m e investigou quais subst\u00e2ncias qu\u00edmicas do c\u00e9rebro apresentavam altera\u00e7\u00f5es em cada biotipo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas perfis mostraram padr\u00f5es distintos: o biotipo 1 envolve dopamina e serotonina \u2014 ligadas a humor, motiva\u00e7\u00e3o e bem-estar \u2014 al\u00e9m de acetilcolina, relacionada \u00e0 mem\u00f3ria e aten\u00e7\u00e3o. O biotipo 2 apresentou altera\u00e7\u00f5es em glutamato, o principal mensageiro de ativa\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, entre outras subst\u00e2ncias. O biotipo 3 mostrou altera\u00e7\u00f5es mais restritas, tamb\u00e9m ligadas \u00e0 serotonina.<\/p>\n<p>Os medicamentos mais usados no TDAH hoje \u2014 como o metilfenidato, conhecido como Ritalina \u2014 agem principalmente na dopamina e na noradrenalina, subst\u00e2ncias ligadas \u00e0 aten\u00e7\u00e3o e ao autocontrole.<\/p>\n<p>Mas se o biotipo 2 tem seu perfil dominante ligado ao glutamato \u2014 principal mensageiro de ativa\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro \u2014 e ao sistema endocanabinoide \u2014 rede de receptores que regula humor, dor e sono \u2014, a pergunta que se coloca \u00e9 direta: esse grupo responde da mesma forma ao tratamento convencional? Talvez n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que o estudo n\u00e3o responde \u2014 e por que os resultados ainda pedem cautela<\/strong><\/p>\n<p>Apesar da consist\u00eancia dos achados, os pr\u00f3prios pesquisadores foram cuidadosos ao demarcar o que o estudo pode e n\u00e3o pode afirmar. E h\u00e1 cr\u00edticas externas que merecem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo fotografa o c\u00e9rebro em um momento \u2014 n\u00e3o acompanha as mesmas crian\u00e7as por anos para ver se o biotipo muda com o tempo.<\/p>\n<p>Em crian\u00e7as, cujo c\u00e9rebro ainda est\u00e1 em intensa forma\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>A psiquiatra Danielle Admoni lembra que o desenvolvimento cerebral segue em transforma\u00e7\u00e3o at\u00e9 por volta dos 30 anos, o que torna o quadro ainda mais din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Mas ela v\u00ea nisso n\u00e3o apenas uma limita\u00e7\u00e3o, e sim uma pista cl\u00ednica importante: &#8220;Voc\u00ea pode transitar entre esses tr\u00eas subtipos ao longo da vida \u2014 pode come\u00e7ar com um e depois migrar para outro. Os biotipos n\u00e3o s\u00e3o estanques, assim como a plasticidade neuronal tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9.&#8221;<\/p>\n<p>Isso, na sua avalia\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a a necessidade de acompanhar o paciente longitudinalmente, e n\u00e3o apenas fazer um diagn\u00f3stico fixo em um momento.<\/p>\n<p>Outro ponto de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a amostra \u00e9 predominantemente masculina \u2014 76% dos participantes com TDAH eram meninos.<\/p>\n<p>Como o transtorno se apresenta de formas diferentes em meninas, Polanczyk refor\u00e7a que validar os biotipos em amostras com maior representa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 um passo necess\u00e1rio antes de qualquer generaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro ponto diz respeito \u00e0 viabilidade pr\u00e1tica. O estudo foi feito em centros de pesquisa com equipamentos sofisticados e protocolos rigorosos.<\/p>\n<p>&#8220;A neuroimagem \u00e9 pouco acess\u00edvel quando se pensa em sa\u00fade p\u00fablica \u2014 essa \u00e9 uma barreira concreta&#8221;, alerta Polanczyk. Para que esses achados possam ser traduzidos para a pr\u00e1tica cl\u00ednica, ser\u00e1 necess\u00e1rio desenvolver m\u00e9todos de subtipagem que funcionem com recursos dispon\u00edveis em diferentes contextos.<\/p>\n<p>E, talvez o ponto mais importante: o fato de existirem tr\u00eas perfis cerebrais distintos n\u00e3o significa que tratar cada um de forma diferente vai necessariamente mudar os resultados cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>Isso ainda precisa ser testado em ensaios cl\u00ednicos espec\u00edficos \u2014 o que pode levar anos. O pr\u00f3prio Polanczyk adverte contra o entusiasmo prematuro: &#8220;Muitas vezes as pessoas antecipam implica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e j\u00e1 prop\u00f5em tratamentos espec\u00edficos, mas ainda n\u00e3o chegamos a esse ponto.&#8221;<\/p>\n<p><strong>O que vem a seguir<\/strong><\/p>\n<p>O estudo lan\u00e7a as bases para uma abordagem que cientistas chamam de &#8220;medicina de precis\u00e3o&#8221; aplicada \u00e0 psiquiatria: em vez de tratar o TDAH como um bloco \u00fanico, identificar qual \u00e9 o perfil neurobiol\u00f3gico de cada paciente e ajustar o tratamento a partir da\u00ed.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas n\u00e3o v\u00e3o manifestar a mesma doen\u00e7a da mesma maneira, e o tratamento n\u00e3o vai ser o mesmo. A ideia \u00e9 uma coisa mais precisa \u2014 sintomas espec\u00edficos, subtipos espec\u00edficos, e n\u00e3o s\u00f3 da parte de sintomas, mas tamb\u00e9m da parte de tratamento e de acompanhamento&#8221;, resume Admoni.<\/p>\n<p>O caminho, contudo, passa necessariamente por ensaios cl\u00ednicos que testem se subgrupos diferentes respondem de forma distinta a interven\u00e7\u00f5es distintas.<\/p>\n<p>Um<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/36306807\/\">\u00a0estudo randomizado do grupo de Polanczyk<\/a>, publicado h\u00e1 alguns anos, j\u00e1 apontou nessa dire\u00e7\u00e3o: crian\u00e7as pequenas com TDAH e irritabilidade respondiam melhor ao treinamento parental do que \u00e0 medica\u00e7\u00e3o, que se mostrou mais eficaz nas quest\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o e cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Estudos como esse, que identifiquem quais subgrupos respondem melhor ou pior a determinadas interven\u00e7\u00f5es, s\u00e3o fundamentais&#8221;, diz o pesquisador. &#8220;A escolha de medica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas por subgrupo s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel depois desse caminho percorrido.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o que ainda est\u00e1 no horizonte \u2014 n\u00e3o na mesa do consult\u00f3rio. &#8220;\u00c9 um caminho promissor, mas ainda em constru\u00e7\u00e3o&#8221;, resume Polanczyk. (Fonte: BBC News)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por d\u00e9cadas, m\u00e9dicos e pesquisadores trataram o Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade \u2014 o\u00a0TDAH\u00a0\u2014 como se fosse uma condi\u00e7\u00e3o relativamente \u00fanica, variando apenas no quanto cada pessoa era desatenta,\u00a0hiperativa\u00a0ou impulsiva. 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